Coluna Jorge Barros: TODAS AS COISAS SÃO BELAS QUANDO SÃO LITERÁRIAS

Todas as coisas são belas quando têm poesia; todas as coisas são belas quando a alegria está presente. Nada deixa de ser belo quando o sorriso de uma criança irradia sua luz própria; todas as paisagens são belas quando a presença de uma flor é notada, de muitas flores também. A arte, em si, já é literária em todas as suas dimensões, em todas as suas formas. A arte verdadeira não procura aplausos momentâneos e descartáveis, e sim mostrar o sentido da existência humana em um universo em completo desencanto, em completa desarmonia com tudo que nele existe; em um universo que não anda a passos firmes porque os homens não se entendem, não se encontram, não confraternizam. Mas, onde está um homem do povo, aí está também uma forma de arte, uma das mais puras, por sinal. Onde está uma criança com o seu puro sorriso, aí está a mais pura poesia que se conhece desde a fundação do mundo, desde as primeiras formas de vida na terra. Onde está um palhaço, aí está uma pista a ser seguida para o encontro com o riso, com a alegria. Onde há mulheres do povo, registra- se uma das partes da perfeita criação. Tudo isso é belo e, por conseguinte, é literário. Saia do seu casulo e vá viver a vida lá fora; abandone aquela vidinha medíocre e tediosa e vá ao encontro dos amigos, das pessoas que você ama e da natureza que lhe espera de braços abertos com sol ou chuva. Não distribua mágoas, mentiras, rancores, inveja, pessimismo, incertezas e outras mazelas que tanto têm atrofiado a vida e destruído muitas esperanças. Distribua sorriso, positivismo, verdades, confiança, esperança, luz, flores. A mensagem de uma flor transcende qualquer filosofia meditada em um momento solene, tanto ao dia como à noite. Uma flor pode resgatar esperanças perdidas, esquecidas, destruídas, desaparecidas, vencidas... Viver é sentir-se hoje, agora. Um segundo perdido na vida não será recuperado nem daqui a duzentos bilhões de anos. Quando o último suspiro for dado por alguém, não resta mais nada a fazer, a não ser o registro de quem o deu pela última vez. Não é assim a lei da vida? Também não é assim a lei da morte? Portanto, transforme-se em algo belo, em um palhaço, em uma criança, em um homem do povo, em uma mulher do povo, para ser literário. Todas as coisas são belas quando são literárias. A foto desta coluna registra um dos belos momentos do encerramento da disciplina Técnicas para Palhaço, no Mercado Vicente Grilo, em fevereiro de 2011, ministrado pelo programa Requalificação dos Trabalhadores de Teatro (RETRATE – INTERIOR). Livro indicado para leitura: Chaplin – Uma biografia definitiva. David Robinson. Osasco/SP: Novo Século Editora, 2012. Filme indicado para reflexão e diversão: Minha bela dama (1964), musical, do diretor George Cukor. Elenco principal: Rex Harrison, Audrey Hepburn, Stanley Holloway e Gladys Cooper.
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