Hemofilia, o tratamento existe, mas não para todos
21/8
Josalto Alves
A Bahia convive hoje com uma contradição silenciosa e cruel. Enquanto o Brasil é referência mundial no tratamento da hemofilia, milhares de baianos enfrentam uma realidade marcada por atraso, desigualdade e sofrimento evitável. O tratamento existe. O problema é que ele não chega para todos e, quando chega, muitas vezes já é tarde. De acordo com dados da World Federation of Hemophilia (WFH), o Brasil aparece em quarto lugar no ranking global de pessoas com hemofilia, com cerca de 14 mil pacientes registrados, atrás da Índia, Estados Unidos e China. As regiões Sul e Sudeste têm melhor cobertura, enquanto o Norte e Nordeste enfrentam acesso mais difícil. Conforme relata o presidente da Associação Baiana de Hemofílicos (ABHe), Almir Bastos, na Bahia, viver com hemofilia é caminhar entre dois mundos: de um lado, um sistema público que garante tratamento gratuito e estruturado; do outro, uma realidade marcada por desigualdade, invisibilidade e acesso limitado fora dos grandes centros. O Brasil possui um dos maiores programas públicos de tratamento da hemofilia do mundo. Pelo SUS, pacientes têm acesso gratuito aos fatores de coagulação, acompanhamento médico e, mais recentemente, a terapias modernas. Na Bahia, cerca de 880 pessoas são acompanhadas pelo sistema público. No papel, é uma política de sucesso. Na prática, é uma política desigual. O atendimento especializado segue concentrado em Salvador. Para quem vive no interior, o acesso ao tratamento significa viagens longas, custos indiretos e interrupções no acompanhamento. E, na hemofilia, interrupção não é detalhe. É dano. É assim que muitos pacientes chegam ao sistema já com sequelas irreversíveis. A consequência dessa falha estrutural é visível: articulações comprometidas, dor crônica, perda de mobilidade, limitação para trabalhar e viver com autonomia Tudo isso poderia ser evitado com diagnóstico precoce e tratamento contínuo. Na Bahia, ainda se descobre a hemofilia tarde demais. Falta protocolo claro de identificação precoce, capacitação na atenção básica. Falta busca ativa. Falta visibilidade. A hemofilia segue fora do debate público, sem campanhas permanentes, sem pressão social e sem prioridade política. Enquanto o mundo avança com terapias mais modernas e eficazes, o acesso na Bahia ainda é desigual. A profilaxia, tratamento preventivo que evita sangramentos e sequelas, muitas vezes começa tarde. Resultado: o sistema trata a consequência, não evita o problema. O mesmo SUS que garante tratamento de excelência em nível nacional ainda não consegue garantir igualdade dentro do próprio estado. Algumas medidas são urgentes e perfeitamente viáveis: Descentralizar o atendimento. Criar polos regionais de acompanhamento e garantir distribuição de medicamentos no interior. Implantar diagnóstico precoce. Estabelecer protocolos nas maternidades e capacitar profissionais da atenção básica para identificar sinais precoces da doença. Garantir profilaxia desde a infância. Adotar a profilaxia primária como regra, evitando que crianças desenvolvam sequelas evitáveis. Ampliar o acesso a novas terapias. Democratizar o uso de medicamentos modernos, com critérios transparentes e distribuição equitativa. Criar uma linha de cuidado integrada. Organizar atendimento com equipe multiprofissional, incluindo fisioterapia, ortopedia e suporte psicológico. Instituir campanha permanente de conscientização. Levar informação à população e dar visibilidade à doença, rompendo o ciclo de invisibilidade. Criar cadastro estadual transparente. Mapear os pacientes e suas condições para planejar políticas públicas com base na realidade. Transformar tudo isso em lei. Estabelecer uma política estadual permanente de atenção à hemofilia, que não dependa de governos, mas de obrigação institucional. A hemofilia ainda é uma doença invisível. E o silêncio, nesse caso, também adoece. O objetivo deste artigo é desafiar os governos estadual e municipal e os gestores municipais a adotar as medidas sugeridas! A conferir...Deixe um comentário:
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